Por Fernanda
Alcântara
O
que não sentir, além de inveja, sobre as relações comunitárias trazidas pelo
Jorlei na última aula do módulo um do PASP? A inveja “boa”, neste caso, é em
relação a interação com seu grupo, a dinâmica e o conjunto de regras e
afetividade construídas a partir de uma história em comum há muito esquecida. Invejo
seu contato direto com a história do povo que construiu esse país: os negros no
Brasil.
Quando
falo dos negros – ou afrodescendentes - no Brasil, é preciso entender um pouco
da de meu contexto pessoal. Como filha de militante do movimento negro, nunca tive
a oportunidade de “me descobrir negra” – título de excelente do livro da
Professora e Mestre Bianca Santana. Sempre soube que era negra, que descendia
de pessoas escravizadas, que enfrentaria racismo ao longo da vida e que jamais
deveria abaixar a cabeça por isso. Criei, assim, uma casca para o assunto,
negando durante a minha adolescência uma história de meus antepassados. Afinal,
se meus colegas não se assumiam negros, porque eu deveria?
Mas
o que isto tem necessariamente com a aula passada? Tudo. Na construção das
raízes brasileiras e do “ser brasileiro”, pouco se estuda e se ressalta o
orgulho dos antepassados africanos e por isso minha dificuldade em
reconhecer-me como negra. A falta de conhecimento e informação sobre Africanos
e seus descendentes, somadas ao racismo cristalizado em nossa cultura, faz com
que não conheçamos esta descendência.
É
mais fácil visualizar isso quando comparamos a nossa descendência africana com
todas as outras miscigenações que ocorreram no país, principalmente se for européia.
Minha própria experiência diz isso: por mais que eu tenha uma base consolidada
sobre a cultura africana e a influência disto na minha história pessoal e de
meu pai, jamais saberemos de qual país e região partiram nossos antepassados,
ao contrário da minha mãe, que por ter descendência alemã é muito mais
acessível à história e documentos de seus antepassados.
Por
isso, tenho inveja de Jorlei e desta pequena parcela de afrodescendentes que
podem entender um pouco de sua história de luta e superação. A minha foi
perdida, esquecida e negada para que minha família pudesse “se esquecer” de ser
quem era para poder tentar se encaixar em uma sociedade eurocêntrica. Porque
até a identidade negra ainda é pouco aceita nesta família. E principalmente
porque, mais que tudo, luto contra a maré da ignorância para construir uma base
sem preconceito para gerações futuras.
Pois acredito que é conhecendo o passado
que podemos construir o futuro.
Sabe Fernanda, ao ler sua reflexão surgiu um questão: não poderia um branco descobrir-se também ao aprender sobre sobre a história e vida as comunidades negras? Mesmo sendo branco percebi na história do Jorlei e militância quilombola algo de universal, algo que pode ensinar não apenas ao negros, mas aos brancos, amarelos e índios, algo da mais profunda natureza humana.
ResponderExcluirO eurocentrismo não mata apenas a cultura negra, ela diminui a cultura humana como um todo. O brancos também se empobrecem ao prescindirem a cultura negra.
Comentários muito interessantes... me chama a atenção a importância que tem a vida concreta e histórica de uma comunidade, que mobiliza e informa o nosso próprio senso de identidade.
ResponderExcluirHá uma certa vertente da Antropologia (com a qual trabalhei por um bom tempo) que enfatiza o caráter político dos posicionamentos identitários, num contexto em que identidades podem ser reapropriadas e mobilizadas em lutas por recursos, direitos etc.
De fato, é importante notar o caráter construído e histórico de toda identidade, mas fico pensando que o que traz consistência é essa concretude histórica, que de fato dá sentido à vida cotidiana das pessoas.
A pergunta que eu faria para a Fernanda é: que diferença faz a você, que descobriu mais tardiamente a riqueza dessa tradição comunitária, no seu espaço social (que por suposto não é o de uma comunidade quilombola)?
Abraços!