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Apresentação

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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Subsidiariedade

Um comentário de Rodrigo Rosa:



Subsidiariedade: coautoria na mudança

A subsidiariedade (princípio pelo qual uma esfera de organização econômica, social ou política não deve sobrepor ou substituir uma esfera inferior, mas antes garantir e apoiar sua autonomia) aponta para uma maior responsabilização do sujeito por sua própria condição. Se por um lado isto colabora para atribuir-lhe um papel ativo, protagonista, em sua própria história, torna necessário também reconhecer as estruturas injustas que colaboraram para tal situação. Sem essa perspectiva, corre-se o risco de não levar em conta os agentes por trás destas estruturas. Tendo isso em vista, a subsidiariedade não busca impor aos menos favorecidos a total responsabilidade pela mudança de suas condições de vida, negando suas causas últimas, como mesmo exige tal análise de pano de fundo para ser bem direcionada.

Dito isto, a meu ver a contribuição fundamental da subsidiariedade está no como estruturar o processo de mudança, na definição de papeis. Trata-se de reconhecer que somente dando a todos a oportunidade de se expressarem, organizarem e construírem em conjunto será possível encontrar soluções aderentes a realidade. Reconhecer que não funcionarão propostas de cima para baixo, planos de gabinete, propostas que não coloquem os envolvidos como sujeitos ativos. Antes, é preciso compreender que uma parte fundamental do processo de exclusão consiste justamente na negação da participação nas esferas decisórias, na manutenção do papel passivo, na negação da capacidade e autonomia do outro, na desconstrução das organizações da sociedade civil.

É preciso reconhecer que todo processo de mudança e transformação social é essencialmente pedagógico e comunitário, exigindo do princípio ao fim respeito a autonomia das pessoa e suas organizações sob pena de negar-se a si mesmo e não atingir os fins idealizados.  Como diz Paulo Freire em Pedagoia da Autonomia:

“O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros. [...] . O professor que desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente, a sua sintaxe e a sua prosódia; o professor que ironiza o aluno, que minimiza, que manda que "ele se ponha em seu lugar" ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência.”

terça-feira, 17 de maio de 2016

Sociedade civil, ética e bem comum

Um comentário de Alfredo dos Santos Junior e Yara Rita dos Santos:

"Gostaríamos de fazer um registro que nos parece relevante, face à temática abordada, principalmente na parte final da exposição, quando é tratada, a partir da “Gaudium et Spes”, a questão do Bem Comum na Doutrina Social Cristã.

Fica claro, ao nosso ver, que a questão da busca e da promoção do Bem Comum não é algo que possa ser visto como uma obrigação ou função exclusiva do Estado: na verdade este é um dever de toda a sociedade.

Se havia tal entendimento na época do Vaticano II, a situação apenas se tornou mais premente desde que a intensificação do processo de globalização tirou dos governos grande parte do poder de agir com a efetividade necessária.

Vivemos tempos nos quais, no dizer de Zygmunt Bauman, há uma separação entre Política – entendida como a capacidade de decidir o que precisa ser feito – e Poder, ou a posse das condições efetivas para fazê-lo. Se a Política ainda está sob a responsabilidade do Estado e do Governo, o poder está cada vez mais concentrado no que, genericamente, chamamos de “mercado”.

Esta situação exige que a sociedade civil esteja cada vez mais organizada e mobilizada no sentido de assumir a tarefa de propor medidas e políticas, participar de sua efetiva implementação e acompanhar sua execução.

Canais e caminhos existem, mas nos parece que há ainda um longo percurso para que esta mesma sociedade esteja consciente deste seu papel e se mostre comprometida em realiza-lo.

Precisamos de um processo educativo que mostre que a Ética vai muito além do que conhecemos como sistema moral. Ética, na verdade, parece apenas ser outro nome para a busca permanente do Bem Comum.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Conhecer o passado e, com ele, construir o futuro - Reflexão e testemunho a partir da apresentação do Jorlei



Por Fernanda Alcântara


 
O que não sentir, além de inveja, sobre as relações comunitárias trazidas pelo Jorlei na última aula do módulo um do PASP? A inveja “boa”, neste caso, é em relação a interação com seu grupo, a dinâmica e o conjunto de regras e afetividade construídas a partir de uma história em comum há muito esquecida. Invejo seu contato direto com a história do povo que construiu esse país: os negros no Brasil.

Quando falo dos negros – ou afrodescendentes - no Brasil, é preciso entender um pouco da de meu contexto pessoal. Como filha de militante do movimento negro, nunca tive a oportunidade de “me descobrir negra” – título de excelente do livro da Professora e Mestre Bianca Santana. Sempre soube que era negra, que descendia de pessoas escravizadas, que enfrentaria racismo ao longo da vida e que jamais deveria abaixar a cabeça por isso. Criei, assim, uma casca para o assunto, negando durante a minha adolescência uma história de meus antepassados. Afinal, se meus colegas não se assumiam negros, porque eu deveria?

Mas o que isto tem necessariamente com a aula passada? Tudo. Na construção das raízes brasileiras e do “ser brasileiro”, pouco se estuda e se ressalta o orgulho dos antepassados africanos e por isso minha dificuldade em reconhecer-me como negra. A falta de conhecimento e informação sobre Africanos e seus descendentes, somadas ao racismo cristalizado em nossa cultura, faz com que não conheçamos esta descendência.

É mais fácil visualizar isso quando comparamos a nossa descendência africana com todas as outras miscigenações que ocorreram no país, principalmente se for européia. Minha própria experiência diz isso: por mais que eu tenha uma base consolidada sobre a cultura africana e a influência disto na minha história pessoal e de meu pai, jamais saberemos de qual país e região partiram nossos antepassados, ao contrário da minha mãe, que por ter descendência alemã é muito mais acessível à história e documentos de seus antepassados.

Por isso, tenho inveja de Jorlei e desta pequena parcela de afrodescendentes que podem entender um pouco de sua história de luta e superação. A minha foi perdida, esquecida e negada para que minha família pudesse “se esquecer” de ser quem era para poder tentar se encaixar em uma sociedade eurocêntrica. Porque até a identidade negra ainda é pouco aceita nesta família. E principalmente porque, mais que tudo, luto contra a maré da ignorância para construir uma base sem preconceito para gerações futuras. 

Pois acredito que é conhecendo o passado que podemos construir o futuro.

Poemas de Rodrigo Rosa, acompanhado a reflexão anterior



Por Rodrigo Rosa:
 
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O braço pesa. A alma pesa.
O ideal, antes claro, embaça.

É o tempo da dor. 

Está-se diante de um grande dilema.
Pode a verdade sê-la de outro modo?
Novas cores caducam um velho tema?
Envelhece, ou envelhecem os olhos?

Aqui é tão diferente agora.

Desconfio do presente. O passado
anda comigo, e não me deixa jamais.
O dito, o feito, passageiro tão eterno,
anda comigo, e não me deixa jamais.

O medo, este intruso, desfaz a coragem.

Tanto medo. Medo de quê?
Moinhos de vento são tão reais.

Eu que sou sempre eu. Um eu tão diferente de cada vez.

Daninha a vontade nessa canteiro da liberdade!
O ser humano é livre em sua vontade fraca.
Glória ao deus escravo!

Sartre, sou livre!
Justamente agora que quero ser escravo de um grande ideal!

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QUEM SOU EU?

Acredito que ser humano é nunca encontrar essa resposta em toda sua profundidade ou mesmo compreender totalmente essa pergunta.

Não sou o que eu faço. Minha profissão é engenheiro da computação, mas não é o que sou.

Não é o que gosto de fazer. Adoro poesia, mas meus versos não me definem.

Não sou aquilo em que ponho minha fé. Ser católico não é o que sou.

Não sou minhas qualidades ou defeitos, não sou aquilo que tenho ou que deixo de ter, não sou meus sonhos ou meus desejos…

Quem serei eu então?

Serei talvez aquele sujeito que faz essa pergunta?

Mas as condições nas quais formulo são tais que me escapam, então como poderiam essas me determinar?

O simples olhar auto-reflexivo não alcança jamais seu objeto, vemos fantasmas distorcidos num espelho fragmentado..

O ser humano é para si a possibilidade e a incógnita. Um conjunto de impressões difusas que jamais se integram…

Vivemos na busca…

Talvez seja essa busca que nos defina, ou quem sabe a intuição de que ela tenha um fim.

Talvez, apenas talvez, tragamos em algum lugar essa resposta, um lugar escondido, um lugar que ainda não somos capazes de acessar.

Talvez seja o movimento de viver que torna estranhos a nós mesmos…

Talvez os ponteiros do relógio da vida girem tão rápido, e cada vez mais rápido, que não somos capazes de dizer para onde eles apontam…

Quem sabe quando bater a última e eterna badalada poderemos enfim ter a resposta…

Liberdade, solidão e diálogo - Reflexões a partir das aulas sobre Pessoa e Comunidade



Por Rodrigo Rosa:

Ao participar das aulas pude contrapor o modelo da liberdade na qual o ser humano se colocava sozinho na torre de marfim da sua escolha frente a ideia posta por Edith Stein de que o indivíduo isolado é uma abstração.

Em Existencialismo é Humanismo de Sarte havia lido muito sobre essa primeira concepção da liberdade, na qual há primeiro a solidão e somente depois o retorno ao mundo como responsabilidade.  

Percebi então que o ato de agir livre se assemelha mais a um diálogo que exige um interlocutor, uma comunidade, do que a um sábio que se retira a montanha a cada passo decisivo. Não que o silêncio e o recolhimento não colaborem com o esclarecimento da vontade, mas trata reconhecer que mesmo no isolamento de nosso próprio coração estamos em diálogo com nossa própria história e com o mundo.

Nesse sentido também foi importante recuperar a distinção entre uma "liberdade de", genérica, sem julgamento moral sobre as alternativas, presentadas sempre como equivalentes, frente a uma "liberdade para", que incorpora a necessidade de expressar um sentido último a ação, um recuperar o senso de dever, um reconhecimento que decidir entre um rumo é outro também é optar pelo bem e o mal. 

Mais do que ser livre por ser livre, o ser humano deseja encontrar e dar um significado último a sua existência. No fundo a ambição de liberdade das décadas de 60 e 70, como antítese ao falso moralismo da primeira metade do século, não encontra sua resolução na busca desenfreada de qualquer coisa, como se não houvesse mais referenciais válidos, ou mesmo como se a própria ideia de referenciais fosse obscura. Na verdade, um falso moralismo somente poderia ser vencido com referenciais e ideais ainda mais profundos, integrais e autênticos. Se a vida não pode ser uma obrigação de adequar-se a regras, tampouco pode ser um simples andar errante. O ser humano precisa do caminho para chegar a expressar a si mesmo, e este caminho é feito de encontros com pessoas, de relacionamentos, de receber outros e entregar-se por inteiro.