Por Rodrigo Rosa:
Ao participar das aulas pude contrapor o modelo da liberdade
na qual o ser humano se colocava sozinho na torre de marfim da sua escolha
frente a ideia posta por Edith Stein de que o indivíduo isolado é uma
abstração.
Em Existencialismo é Humanismo de Sarte havia lido muito
sobre essa primeira concepção da liberdade, na qual há primeiro a solidão e
somente depois o retorno ao mundo como responsabilidade.
Percebi então que o ato de agir livre se assemelha mais a um
diálogo que exige um interlocutor, uma comunidade, do que a um sábio que se
retira a montanha a cada passo decisivo. Não que o silêncio e o recolhimento
não colaborem com o esclarecimento da vontade, mas trata reconhecer que mesmo
no isolamento de nosso próprio coração estamos em diálogo com nossa própria
história e com o mundo.
Nesse sentido também foi importante recuperar a distinção
entre uma "liberdade de", genérica, sem julgamento moral sobre as
alternativas, presentadas sempre como equivalentes, frente a uma "liberdade
para", que incorpora a necessidade de expressar um sentido último a ação,
um recuperar o senso de dever, um reconhecimento que decidir entre um rumo é
outro também é optar pelo bem e o mal.
Mais do que ser livre por ser livre, o ser humano deseja
encontrar e dar um significado último a sua existência. No fundo a ambição de
liberdade das décadas de 60 e 70, como antítese ao falso moralismo da primeira
metade do século, não encontra sua resolução na busca desenfreada de qualquer
coisa, como se não houvesse mais referenciais válidos, ou mesmo como se a
própria ideia de referenciais fosse obscura. Na verdade, um falso moralismo
somente poderia ser vencido com referenciais e ideais ainda mais profundos,
integrais e autênticos. Se a vida não pode ser uma obrigação de adequar-se a
regras, tampouco pode ser um simples andar errante. O ser humano precisa do
caminho para chegar a expressar a si mesmo, e este caminho é feito de encontros
com pessoas, de relacionamentos, de receber outros e entregar-se por inteiro.
Gostei muito de como você pensa e coloca estas questões, Rodrigo. Mas (e me desculpe pelo "mas"), o que você considera entregar-se por inteiro?
ResponderExcluirPergunto pois, no seu outro post, quando diz "acredito que ser humano é nunca encontrar essa resposta [Quem sou eu] em toda sua profundidade ou mesmo compreender totalmente essa pergunta". Se não sei quem sou eu, meus limites, acho que se torna impossível entregar-se por inteiro. Não temos a dimensão deste inteiro (e talvez nunca o tenhamos). Então como entregar-se por inteiro?
Reitero que gostei muito destas reflexões e espero poder dialogar sobre isso, pois todos as aulas colocadas até agora são de tal complexidade que fica difícil digerir todas as perguntas em apenas duas horas. O entregar-se por inteiro, assim, não seria mais uma ilusão entre as relações humanas? Ou será que as próprias relações tal como as conhecemos hoje, não seria algo que representa o real, e não o próprio real?
Jogo com palavras? Talvez. Mas tudo isso acaba sendo por demais confuso.
Prezado Rodrigo,
ResponderExcluirMuito obrigado por sua profunda reflexão.
Procurei durante as nossas aulas dar ênfase à dimensão comunitária da pessoa, e consequentemente da sua liberdade.
De fato, é um mistério que os atos de vontade livre, que expressam de maneira mais clara a autoria de nós mesmos, só façam sentido no contexto de relações sociais e comunitárias.
Eu diria que isso tem que ver com a natureza paradoxical da pessoa, que, ao participar de modo insubsituível (autônomo e digno) da esfera moral, participa de uma realidade que é comum (na linguagem de Heráclito, o xynon), e cujo sentido precisa ser aprendido e recuperado no contexto de relações e tradições sociais.
Gustavo.
Fernanda, eu acredito que a ideia de um ser humano inteiro e ao mesmo tempo infinito, insondável, não é contraditória, mas complementar. O inteiro nesse caso é no sentido de sair da superfície, relacionar-se em profundidade. Estar inteiro é sinônimo aqui de ser autêntico, verdadeiro, fiel a si mesmo, não uma persona, uma máscara. Pode ser de fato que sempre descubramos algo novo relacionamento de forma que outro e nós mesmos seremos inesgotáveis um para o outro. Mas ao mesmo tempo, talvez seja tentar ser cada dia mais "inteiro" para outro que nos torne a relação ainda mais densa, viva, criativa e interminável.
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