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terça-feira, 17 de maio de 2016

Sociedade civil, ética e bem comum

Um comentário de Alfredo dos Santos Junior e Yara Rita dos Santos:

"Gostaríamos de fazer um registro que nos parece relevante, face à temática abordada, principalmente na parte final da exposição, quando é tratada, a partir da “Gaudium et Spes”, a questão do Bem Comum na Doutrina Social Cristã.

Fica claro, ao nosso ver, que a questão da busca e da promoção do Bem Comum não é algo que possa ser visto como uma obrigação ou função exclusiva do Estado: na verdade este é um dever de toda a sociedade.

Se havia tal entendimento na época do Vaticano II, a situação apenas se tornou mais premente desde que a intensificação do processo de globalização tirou dos governos grande parte do poder de agir com a efetividade necessária.

Vivemos tempos nos quais, no dizer de Zygmunt Bauman, há uma separação entre Política – entendida como a capacidade de decidir o que precisa ser feito – e Poder, ou a posse das condições efetivas para fazê-lo. Se a Política ainda está sob a responsabilidade do Estado e do Governo, o poder está cada vez mais concentrado no que, genericamente, chamamos de “mercado”.

Esta situação exige que a sociedade civil esteja cada vez mais organizada e mobilizada no sentido de assumir a tarefa de propor medidas e políticas, participar de sua efetiva implementação e acompanhar sua execução.

Canais e caminhos existem, mas nos parece que há ainda um longo percurso para que esta mesma sociedade esteja consciente deste seu papel e se mostre comprometida em realiza-lo.

Precisamos de um processo educativo que mostre que a Ética vai muito além do que conhecemos como sistema moral. Ética, na verdade, parece apenas ser outro nome para a busca permanente do Bem Comum.

Um comentário:

  1. Gostaria de somar ao comentário do Alfredo e da Yara uma referência ao trecho da Encíclica Caritas em CARITAS IN VERITATE do Pape Bento XVI, no qual é colocada a relação entre Caridade, Justiça e Bem Comum.

    "Em primeiro lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius: cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é « meu »; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é « dele », o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso « dar » ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é « inseparável da caridade »[1], é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, « a medida mínima » dela[2], parte integrante daquele amor « por acções e em verdade » (1 Jo 3, 18) a que nos exorta o apóstolo João. Por um lado, a caridade exige a justiça: o reconhecimento e o respeito dos legítimos direitos dos indivíduos e dos povos. Aquela empenha-se na construção da « cidade do homem » segundo o direito e a justiça. Por outro, a caridade supera a justiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão[3]. A « cidade do homem » não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo.

    7. Depois, é preciso ter em grande consideração o bem comum. Amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem daquele « nós-todos », formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social[4]. Não é um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social e que, só nela, podem realmente e com maior eficácia obter o próprio bem. Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade. Comprometer-se pelo bem comum é, por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de pólis, cidade. Ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê resposta também às suas necessidades reais. Todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. Este é o caminho institucional — podemos mesmo dizer político — da caridade, não menos qualificado e incisivo do que o é a caridade que vai directamente ao encontro do próximo, fora das mediações institucionais da pólis. Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. Aquele, como todo o empenho pela justiça, inscreve-se no testemunho da caridade divina que, agindo no tempo, prepara o eterno. A acção do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana. Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir as dimensões da família humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das nações[5], para dar forma de unidade e paz à cidade do homem e torná-la em certa medida antecipação que prefigura a cidade de Deus sem barreiras."

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