Para aquecer um pouco as atividades deste blog, decidimos compartilhar algumas perguntas que a Mônica, coordenadora pedagógica da Oficina Municipal, fez no dia posterior à aula sobre Vontade Livre e Responsável.
Quem quiser começar a responder ou comentar, ou mesmo acrescentar novas perguntas, sinta-se à vontade!
1- Se o lado animal não escolhe o mal, o que faz o homem escolhe-lo? O lado humano?
2 - É preciso escolher entre liberdade verdadeira e a fome (alimento=essencial para a manutenção da vida)? Elas se opõem?
3 - Se o Ser Humano agir “naturalmente” se aproximará mais do irracional, uma vez que a vontade (apetite racional) precisa ser exercitada? No limite, o bom Homem aprende a ser “homem”, assim como o Dr. House?
4 - Racionalidade e moralidade são culturais? Se sim, isso não faz com que seja bom ou ruim, é apenas cultural e agir de outra forma é possível e pode ser “bom”?
Abraços, e boa discussão!
Se um urso e um ser humano matam para defender seu território, ambos cometem essencialmente o mesmo ato. O que torna ação humana capaz de ser julgada como boa ou má é a possibilidade do não agir, enquanto o urso se mantém preso ao instinto. Dessa forma, não se pode dizer que o animal não escolhe o mal, pois no fundo esse jamais "escolhe" de todo, seus atos assim não são bons nem maus. Sem liberdade não há moral.
ResponderExcluirNão é mais livre quem cede de todo ao instinto, mas aquele que pode escolher com mais liberdade interior o caminho a seguir. Assim, não se trata de definir como mau ou bom um instinto ou apetite, mas de reafirmar que a esfera moral se coloca acima dessa atração, num plano completamente diferente. A verdadeira liberdade é aquela que capaz de elevar sua consciência para julgar se ceder ou não ao instinto seria bom ou mal, agindo conforme o bem.
Agir "naturalmente" traz a falácia de assumir que a natureza humana em sua essência mais íntima seja o instinto, quando na verdade é a liberdade. Um ser humano escravo dos seus instintos se desumaniza, se apequena. Chesterton já dizia em seu livro Ortodoxia que o mais assombroso no ser humano não é quanto ele parece com o macaco, mas mesmo sendo tão parecido, ser absolutamente diferente. Ele mesmo continua dizendo que jamais viu estátuas das grandes rainhas formigas em suas colônias; apenas o ser humano elava-se ao simbólico e a narrativa.
Acredito que o que eleva o patamar da liberdade humana não seria a racionalidade ou a cultura, mas o amor e o afeto dados, recebidos. A cultura e a razão podem anular a liberdade interior por mil labirintos obscuros. Racionalizar uma questão ética muitas vez é anulá-la e reduzí-la ao tecnicismo. Apenas o amor torna evidente o mal, e torna-nos capazes de optar pelo bem. Agir bem é agir com amor, e o amor é universal.
Rodrigo,
ResponderExcluirEu lembro que o conceito de virtude em Aristóteles envolve também habituar o corpo e a psique para agir (e "gostar de agir") segundo as faculdades superiores do ser humano, onde são tomadas as decisões éticas. Então a liberdade, embora tenha como núcleo central o livre-arbítrio, a razão, o espírito, também se preocupa não só com controlar e não ceder ao instinto, mas de alguma forma ir humanizando o próprio instinto, a psique etc. (claro, na medida e no nível em que esses elementos são capazes de ser "humanizados")
Karol Wojtyla, antes de ser João Paulo II, fala em sua fenomenologia da pessoa e do amor entre homem e mulher de uma integração dos aspectos físicos e psíquicos no nível da pessoa (que é o nível capaz de reunir existencialmente esses elementos da nossa vida). (Vide Amor e Responsabilidade, desse autor.)
Por fim, completo dizendo que se alguém escolhe o mal, não é o aspecto animal e instintivo, mas o próprio espírito ou a liberdade, em cada um de nós (talvez a partir de impulsos imediatos ou hábitos enraizados, físicos ou psíquicos). Trata-se de uma escolha paradoxal, pois escolher o mal significa diminuir a liberdade em função de apelos que vêm de outros lados.
Prof. Gustavo, sinto uma certa inquietação com a ideia de virtude como hábito da prática do bem e o consequente "fortalecimento" da vontade para ganhar domínio sobre o instinto, por associar-se em demasia a ideia de disciplina e autocontrole. Ao meu ver, a real força moral nasce fundamentalmente experiência de amar e ser amado. A ideia de virtude como algo desenvolvido de dentro para fora não é capaz de incorporar a radicalidade da Revelação: Deus toma a iniciativa de amar primeiro. Toda a moral cristã nasce como resposta a essa iniciativa inicial de amor divino.
ResponderExcluirA repetição do agir bem pode de fato dificultar algumas escolhas ruins, mas a experiência mística do encontro pessoal com Deus e seu amor é capaz de promover uma transformação no coração humano que nenhum hábito seria capaz de criar. A virtude não seria capaz de explicar a conversão de São Paulo ou mesmo a traição e o subsequente diálogo de amor entre São Pedro e Cristo na praia. Somente quando colocamos a moral sob a luz do amar e ser amado, essas experiências se tornam compreensíveis. Toda radicalidade do agir bem deles por longo anos depois decorreu e foi alimentado a partir da densidade desta experiência misteriosa de amor.
Uma segunda consideração é a experiência do amor entre mães e filhos. Uma mãe não aprende a amá-los, ela simplesmente os ama a partir do primeiro segundo. A mística do nascimento gera algo transformador como esse encontro com o divino. Tal amor parece ser fundamental na construção da personalidade e na capacidade futura do ser humano agir bem.
Olá, Rodrigo, comentando um pouco suas observações provocadoras:
ResponderExcluirÉ verdade que a ética da virtude (Platônica e Aristotélica) nasceu num contexto pré-Cristão, em que a Revelação do Deus – amor não é clara, mas não é menos verdade que a orientação interna de Platão e Aristóteles provém de uma atração da presença do fundamento transcendente da existência humana (para usar uma expressão de Eric Voegelin).
A virtude é uma realidade sumamente humana, e não a vejo em oposição à Revelação, nem menos à infusão do amor de Deus pelo Espírito Santo, como se dá no caso das virtudes teologais da fé, esperança e caridade.
Ainda que seja Deus que tome a iniciativa, ou que a atração da transcendência desperte em nosso interior esse chamado ao bem, é necessário um trabalho de educação e desenvolvimento das nossas capacidades (até mesmo das intelectuais e volitivas). Não nascemos prontos, não é mesmo? E Deus não nos transformará contra a nossa vontade, como a graça não substitui, mas completa a natureza.
Acho que é preciso distinguir entre esse o primeiro momento de mobilização interna pela revelação do amor e todo o trabalho posterior de transformar esse primeiro impulso em realidade cotidiana, incorporada. As mães sabem o quanto às vezes é um exercício viver esse amor incondicional, no meio da noite não dormida, no cansaço do fim do dia etc!